quinta-feira, 20 de outubro de 2011

quinta dos inferno

sentada naquele banco com acolchoado preto contava às outras mulheres que também aguardavam atendimento: é difícil, né, nem saio mais de casa porque o povo lá da rua fica falando, comentando, 19 anos com dois filhos o povo mete a língua mesmo...nem saio de casa.

meu bem, eu tenho experiência de quatro partos, todos normal, dói pra porra!

querer eu não queria, né, mas....

meu interesse era nem fazer esse pré natal, eu queria mesmo era agachá debaixo de uma árvore e parir ali mesmo, que nem aquelas índia do mato...

hoje posso perceber que algo muito forte me cerca, m protege do mundo ou será que me aprisiona?
hoje cozinhei pilando o alho como naquele passado que já esqueci.
à tarde saiu um solzinho frio e eu não dormi: caí foi nas garras dessa ânsia de saber o quê das outas pessoas, como podem viver normalmente? invejei todas elas. Sinto uma confusão...pela manhã, o que me acordou foi o berro do peixeiro vendendo sardinha e filé sem espinho. Sem espinho....senti inveja das mulheres bem resolvidas com suas certezas. Trabalhei pouco. Ando economizando-me. A náusea da gravidez tem tirado meu sono...sinto falta de dançar, me vejo como uma reclamona cuja pomba presa se debate contra a parede na ânsia de fugir...gira? Sândalo: óleo essencial de sândalo. Agora vou me agachar para esfregar o vermelho do chão, é preciso um chão limpo, branco e puro.
minha fala não contém nenhuma palavra desconhecida, sou linguagem da mais simples, porém nem eu mesma a compreendo. Estou a carregar um mar bravo em mim, enjôo, enjôo...ninguém pode saber, ninguém saberá. Quem, não ser eu, aparece por aqui? Sinto-me naufragada em um limbo enlameado. estou há duas horas aqui, frente ao portal, brincando de me esfaquear o coração em miúdos...algo falta. Buraco. Corpo inerte.

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