sexta-feira, 13 de novembro de 2009

capoeiragem

naquela luta na rua
à noite
frente às vistas dos perdidos e dos bêbados
eu me entrelaçava na tua fuga
feito cobra na carniça
picando e lambendo
te bati (aprendeu capoeira pra batê nos home)
e te amei
entre uma pernada e um beijo
mandado de ponta-cabeça.
ai que saudade daquela luta.
a fúria dos meus olhos secos chorosos
querendo acarinhar essa tua cara
que merecia mesmo era TAPA!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

origem

a arte que eu tive? - música sertaneja e roberto carlos na fita k7. como muitos patrícios da minha idade. frutos. tardes e mais tardes sem nada pra fazer a não ser ouvir na transcontinental aqueles pagodes ultra-romanticos que revelavam o lirismo de quem está condenado. nada muito folclórico; sem boi-meu-bumbá nem griots míticos, só um homem magro e sem dentes que fumava crack sentado no barranco de sua casa e me pedia pra lhe comprar coca-cola gelada: era viciado na bebida. o troco era meu. Reinaldo reinava lá na rua dos meus pretéritos sóis.

a falta

uma perna com tênis numa tarde despretenciosa
duas muletas
vive-se.
vasos são quebrados todos os dias;
falta uma perna ali,
mas há uma meia colorida
descontração do aleijado
amor?
eu não tenho um lar burguês - marinheiro só.
com marido e filhos e contas.
vou chorar meu espanto
[o velho espanto diante das coisas ocultas e das reveladas]
vou gozá-lo
numa cama fria.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

o corpo foi encontrado com uma perfuração no peito.

sobreviver com vida.

sábado, 3 de outubro de 2009

uma estorinha sem final.

interfonou para aquele vizinho de nome antigo morador do sexto andar. 'Desce aqui'. susurrou com voz sedutora como num canto de sereia pronta pra afogar o marinheiro que despertasse seu desejo. 'tô indo' respondeu a grave voz do outro lado. estava tudo planejado na cabeça daquela mulher. ele bateria na porta ela abriria. e isso, apenas isso aconteceu conforme o planejado. ele entrou, sentou no banquinho da cozinha. 'quer beber algo?' 'não'. 'come uma banana..' 'vou aceitar.". Comeu a banana desviando o olhar daquelas pernas morenas à mostra, faceiras.. dentro de seu peito, não, de seu colo...parece que não, mas palpitava um coração desejoso daquele homem, digo, menino. a diferença de idade, ele 23 ela 26, apesar de parecer ínfima..votava àquela relação(havia relação?)desencontros homéricos. a moça em questão, que era bonita, cheia de vida, inteligente e outros mais adjetivos que este narrador se abstém de enunciar por motivos de neutralidade narrativa (ou ao menos uma tentativa de). bem, aquela moça queria dar-lhe o corpo, fazer-lhe carinhos, dedicar-lhe canções. só isso (seria pouco ou muito?). e foi com toda essa intenção que ela o interfonara e pedira que descesse até o segundo andar. depois de comer a banana, o rapazote inqueriu o motivo do chamado, alegando ter "coisas para fazer em casa". 'quer ver o canivete que eu comprei em aparecida do norte?'disse a moça, 'quero' respondeu o moço já com olhos assombrados. depois de receber da moça o pequeno canivete vagabundo e observá-lo bem, declarou:'isso aqui não corta!' 'mas fura' respondeu de pronto, com ímpar sagacidade, aquela já mulher em plena florescência. em seguida tirou a blusa e a mini-saia. estando assim apenas com a parte inferior de sua langerie, aguardou que aquele moço, o qual ela nem achava tão bonito assim, nem tão inteligente, pelo contrário, sempre o considerara bobo, boçal e infantil; enfim, ela aguardou, esperançosa que aquele moço recebesse o presente que ela estava lhe oferecendo: seu corpo e seu chamego. nada mais. o dito cujo, ai meu deus... (perdoe leitor, minha interjeição, sei que enquanto narrador não devo me pronunciar, mas ai meu deus!!!) ele simplesmente se levantou e partiu, deixando a nossa heroína (sim, a personagem feminina já se transformou em heroína à essa altura)sem entender bulhufas.... afinal porque um homem jovem recusaria sorver daquele corpo ardente e brejeiro, cheio de intenções rebolísticas e tudo mais que uma moça daquelas seria capaz de DAR? Por que? nada. só o silêncio e depois a porta se fechando atrás dele. claro, e algumas gargalhadas seguidas ao fato. Deu um suspiro falso, percebeu que ainda estava seminua... deitou-se na cama que também esperava fortes encontros corporais naquela noite. acabou que dormiu gostoso, só de calcinha preta, e teve sonhos dos quais não se lembrou no outro dia.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Marina.

desceu do ônibus, o sol estava trincando no asfalto. maldita cidade empoeirada. sacudiu a cabeleira cacheada semi-molhada. havia tomado banho antes de sair de casa. adorava secar os cabelos ao sol; dá energia, volume, força... o sol sempre dá força.olhou na porta de vidro de um restaurante, se achou bonita. sempre que olha no espelho se acha bonita, embora saiba que sua beleza não é doce, é ácida. dá um certo medo de chegar perto, causa uma mistura de atraão e repulsão. rara. ela mesma tem sobre si mesma a impressão de ser uma mulher extremamente sensual. é uma beleza que não se vê de longe, só de perto, muito perto.. quase dentro. é preciso mergulhar naqueles olhos expressivos e cheios de vergonha. escorrer por aquele corpo esculpido por noites e noites de samba e colorido pela cor da canela em pau e açúcar. olhou bem, sim, estava bonita, porém um pouco pálida, talvez a fraqueza de ainda não ter almoçado ou o espanto de certas emoções que de vez em quando arrebatam aquele coração de escrava arredia. decidiu passar batom. vermelho, é claro. passou por uma barraquinha, dessas que vendem coisas inúteis como cadeadinhos, pentes de plástico, capa para carteira de trabalho, etc. parou e comprou do velhinho vendedor um espelhinho redondo para carregar na bolsa e poder passar batom em qualquer lugar sem ter que apelar para espelhos de carros parados ou portas de restaurantes, com caras tão pálidas quantos a dela olhando assombradas de lá de dentro.pagou um real no espelhinho vagabundo (vermelho, é claro) e depois da compra, olhando de soslaio pelo mesmo espelhinho, percebeu o olhar de safadeza pueril que o velho lançara em direção de seu parco, porém forte, corpo de mulher forte. ela sorriu por dentro. gostava realmente de ser desejada. deu alguns passos e logo parou no farol. com o novo espelhino em mãos, lambuzou os grossos lábios com a cera encarnada. lembrou do calor e sentiu, de repente, uma imensa preguiça.