terça-feira, 6 de dezembro de 2011

tem uma moça que eu odeio. ela é bonita, talentosa, esforçada e rica. Eu a odeio pelo fato d'ela querer roubar meu lugar e pela vida ter sido gentil com ela dando-lhe tudo. Hoje, refletindo sobre essa fantasmagoria, percebi que sou muito mais parecida com ela do que com aqueles aos quais me agrupo.

um jeito nisso

eu sai me esgueirando pelos cantos escuros para que ninguém me visse choramingar. Eu me arrastei pela lama até aqui, o esgoto que escorria pelas sarjetas respingou em minha roupa enquanto os carros passavam à toda velocidade. Eu escondi meu rosto atrás de minhas mãos em posição de prece...eu desejei ser outra, eu desejei a morte dos que me deram a vida. Blasfemei contra as verdades, duvidei da felicidade estampada nos rostos sorridentes das fotografias que não se imprimem mais...por inveja. Em verdade sei que eu os odiava e os invejava ao mesmo tempo num paradoxo dolorosamente meu. Sim, eu refleti, lembrei-me daqueles que estão por fora de tudo, assim como eu. Pensei em sua dor ignorada...senti algum alívio n'alma, contudo, pouco durou tal refrigério. Eu quis dançar nua encorporada naquilo que de mais profundo e sagrado há nesse meu ser prosaico...sim, eu quis a intensidade do perigo das longas viagens, a liberdade da solidão desbravadora de mundos, eu quis...eu quis...olhar nos olhos do meu próximo e ter a coragem de dizer a verdade, arreganhar-me aos passantes, despetalar-me os cabelos na fúria de quem ama a vida mais do que a própria dor...com considerável frequência tenho sonhado um mesmo sonho, no qual tento atravessar um córrego sujo e raso, onde escorre uma água cor de chumbo e balança uma pontezinha de madeira...até então não alcancei o outro lado, separado de mim pelo meu nojo de molhar meus pés naquela água lodosa...

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

na velocidade da pulga.
na velocidade da fuga.
ela é uma DEUSA parda. Longas pencas de cachos castanhos. Traz entre os braços um fresco ramo de diamba selvagem. ela dança escondida no mato-dentro de si. olha com os zóio fazendo curva de baixo pra cima.

barriga

então eu sentia inveja.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

arroz feijão

ninguém, nem eu, quer a rotina cotidiana da vida real, a não ser os ensimesmados presos à ilusão do "é isso aí".acordar cedo, vomitar o tédio como um operário, como uma dançarina, como um músico cheio de entorpecentes no sangue.Ah, o glamour. O "ser alguém". Ouvir uma canção pra acalentar a dor de ser/estar eternamente por pelos menos 60 anos (a expectativa de vida está cada vez maior - ninguém morre mais!).
Fazer a janta: picar o alho, a cebola, ferver a água...mais náusea. Carregar um mundo todo dentro de si e então parir...
eu costumava ser uma jovem mulher libidinosa, cheia de tristeza e tristeza, sonhos presos num espelho sem imagem. eu costumava pintar a boca e as unhas de vermelho. eu costumava escrever. amanhã: acordar cedo, vomitar o vazio na privada branca. eu costumava escrever nas paredes meu desespero. No entanto, agora, acabou o giz? sinto as células se dividindo. meiose, mitose: mito de mim contado por um surdo-mudo sem as tripas pra ninguém ouvir.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

ladainha II

eu trabalho todo dia
eu trabalho todo dia, colega véi
pra vê se dinheiro corre,
se dinheiro não corrê,
oi de fome ninguém num morre.

essa moça aqui chegou,
essa moça aqui chegou, dizendo assim
"quero ser capoeirista"
ai treinou, treinou, treinou
hoje acha que é artista. háhá!

sinhá moça escute aqui,
sinhá moça escute aqui,
capoeira não é arte,
capoeira é resistência
é também sobrevivência
e aqui gato não late!...hêhê!
ouça bem o meu recado
todo cheio de sotaque.

Se você não entendeu
se você não entendeu,
e achou que é besteira.
ói na roda vamo vê
quem é que toma rasteira...háhá!